Thaís  Copetti

Você sabia

Hoje, você não sabe,
Eu fui até a sua casa
Soltar esse amor que não me cabe.
Arranquei todas as poesias do meu caderno
E lancei-as contra a sua janela.
Rastejei na sua calçada
E como quem não quer nada
Eu disse tudo

Hoje, você não sabe,
Você nem viu, não ouviu, ou ficou mudo.
Eu gritei até ficar rouca.
Até os vizinhos me chamarem de louca,
Chegar a ambulância e a polícia.
Até eu virar a principal notícia.
Até o sol ficar envergonhado
e mandar a lua surgir.

Hoje, você não sabe (ou não está nem aí)
O chamei, assobiei, aplaudi.
Esborrifei amor para todo o lado, em todo o canto.
Cantei com o perfume do meu pranto
De modo em que cada esquina
Ecoou o seu cheiro.

Hoje, você finge que não sabe.
Imagina, fiquei lá a noite e o dia inteiro.
Você me ignorou, me deixou no relento.
Hoje eu lamento, amanhã, agradeço
e depois eu esqueço.
Hoje você acha graça, amanhã será desgraça
e depois baterá na minha porta.

Hoje, se você não soube,
Já de que me importa?
Mas você vai saber,
Quando notar a fumaça.
Porque ateei fogo em todas as poesias do meu caderno
E joguei contra sua janela.
Dei uma cuspidela na sua calçada
E como quem quer tudo
Preferi sair sem nada.

Thaís Copetti

 

Desculpa

Desculpa se a atenção que te dispenso
Não é tanto quanto cativo.
Desculpa se às vezes chego tarde,
Se faço do diminutivo, um alarde.
Desculpa por minha falta de bom senso,
Se às vezes não estou de bom humor.

Desculpa, meu amor, por minhas manias,
Por minhas fraquezas, incertezas
E as “ ezas” de todos os dias.
Desculpa se não sou como você tão forte,
Se sou o sul ao invés do norte,
Se não uso bússolas, nem direção.

Desculpa, meu coração, por meu egoísmo, meu lirismo,
Por não ser perfeita
E não suportar seu realismo.
Desculpa se as curvas do meu corpo
Já não são mais tão bem feitas.
Pelas rugas que por fora aparecerão com a idade
E pela atemporalidade que por dentro há em mim.

Desculpa por minhas atitudes sem explicativas
Se não superei suas expectativas,
E por minha ausência de conclusões.
Desculpa se já não tenho muita paciência,
Se rio da sua ciência
Tentando para o inexplicável dar explicações.

Desculpa por minhas e suas inúmeras ligações,
Por meu e o seu ciúme exagerado.
(Nós demos motivos lá atrás)
Desculpa por dizer que é você sempre o errado
E eu sou a certa.

Desculpa se você já não me surpreende mais,
Se você já é ilha descoberta
E conheço em detalhes
Cada grão de areia de você.

Desculpa se somos tão diferentes
Se nossa linha é um ziguezague
E é difícil achar um ponto em comum.
Desculpa, até mesmo que eu indague
Se é preciso mesmo desculpar-me
Porque entre os motivos mil
Foi por tudo isso que te amei e amo,
Foi toda essa diferença que nos uniu.

Thaís Copetti


Meio-Fio

Um pé na estrada e outro na calçada
As mãos equilibrando sonhos
Que vão caindo de tantos
E se perdendo no caminho.
E quanto mais eu me abaixo para pegá-los
Mas se perdem.

Se eu adivinho tinha ficado parada
Na parada de ônibus da esquina.
Ou se eu adivinho
Que iria ficar no meio-fio,
Deveria ter me doado por inteira.
E por muito tempo, tanto receio
A troco de nada.

Porque faltou pouco para pisar no freio.
Faltou um pouco de gasolina.

É um caminho sem volta.
Eu deveria ter instalado um GPS no meu carro.
Mas eu fui devagar e longe “eu me garanto”- pensei
Mas para meu espanto, me perdi.

Eu que nem joguei pedaços de pão pela trilha....
Aliás eu os joguei, mas comi.
“Mais vale um pássaro na mão
Do que dois voando”, aprendi.
E me tornei um pássaro.
Se alguém vai me segurar eu não sei.

Porque não quero tomar grandes decisões.
Ter novas decepções.
Eu quero o equilíbrio
A hibridez das coisas.
A embriaguez da vida
A ter que andar no meio-fio
Eu sou assim e pronto,
Eu me desafio.

Thaís Copetti

 

Música: Bolero de Ravel

 

 

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